sexta-feira, 1 de maio de 2015

Pedir que outra pessoa trabalhe por amor é de uma crueldade sem tamanho...

Em alguns textos e aforismos, Adorno deixava clara a mensagem do quanto é cruel pedir decência em um mundo que, em suma, é completamente indecente.
Acho interessante notar que o discurso do "trabalhar por amor" se dirija apenas aos professores. Nem consigo imaginar viver em um mundo onde os políticos trabalham por amor, onde médicos, jornalistas, psicólogos, engenheiros, farmacêuticos, publicitários, programadores, administradores e todos os outros profissionais trabalhassem única e exclusivamente POR AMOR.
Penso que a fome, as doenças e as desigualdades não existiriam. Mas existem. 
Existem justamente porque ninguém, digo NINGUÉM, é capaz ou tem condições, nessa sociedade, de trabalhar por amor. Amor não põe comida na mesa, não paga impostos, não enche o tanque do carro, não paga as contas da farmácia, nem do supermercado. Amor, no sentido de "não importam as condições" não existe, não funciona. A charge é clara e escancarada: uma sociedade que bate, maltrata, exclui e corrói, pedindo por amor. Um amor que não conhece e que, na realidade, não deseja.
É cruel. Pedir que alguém te ame enquanto apanha. 
É mais cruel ainda se, nas mãos dessa pessoa, estiverem o futuro do seu país, da sua cidade, dos seus filhos.
É infinitamente cruel, se você pensar que só chegou onde está, porque alguém lhe ensinou a pensar, a fazer e a viver coisas diferentes.
Isso é um serviço pago, como tantos outros. Qual é o problema de pagar pelo futuro? 
Sinto que a opção "crédito" tomou conta da nossa realidade. Gostamos de pagar por aquilo do que já usufruímos. Pagamos pelo passado, por um passado de dívidas, de corrupção, de imoralidade e de violência. 

Eu prefiro pagar pelo futuro.
Prefiro pagar para que as novas gerações quitem a dívida de conhecimento e criatividade. 
Prefiro pagar o preço de algo que está por vir e que pode chegar.
Prefiro investir em quem realmente faz o que precisa ser feito, todos os dias, sem pestanejar.



Antes de dizer que alguém deve trabalhar por amor, prefiro pensar que esse amor é uma expressão do comprometimento com o futuro. E só. 
E, enquanto o meu futuro não chega, o presente desse alguém que me educa está lá, cobrando juros e correção monetária.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Corda, cordão.

O órgão humano com maior poder de regeneração não é o fígado, nem a pele, é o cordão umbilical.

São quatro, penso que sejam quatro. 
Quatro cortes.


O primeiro, do apêndice de união física.
O segundo é um primeiro: o primeiro dia de aula. 
O terceiro, a embarcação no mundo adulto.

O último e mais doloroso: a ideologia. 

Depois de iniciar a cisão, não há maneira de voltar atrás. Qualquer tentativa de religamento pode gerar consequências danosas para ambos os lados. 

Dilacerar as expectativas, ou sucumbir a elas são as únicas alternativas de caminho. 

O cordão umbilical é o órgão humano com maior poder de regeneração. 

Abraça, alimenta, aperta e silencia. 

Reclama uma experiência que não tem, afinal, viver mais não significa ter mais experiência. Ler mais, não significa conhecer mais pontos de vista sobre o mesmo assunto. 
O cordão estrangula a qualidade, insiste que a quantidade é a força de seu conhecimento. 

Cansado de lutar contra, e sabendo que a cada golpe, o cordão sangra e chora, vence o silêncio.

Esse silêncio que não é paz, é hemorragia interna.



sexta-feira, 18 de outubro de 2013

wake

Um dia você acorda, depois de assistir um filme, e desconfia que essa vida seja uma mentira.
Um dia você acorda e passa a perceber que esse "arranjo perfeito" tem falhas.
Um dia você acorda e não quer contar nada pra ninguém, nem comprar nada, nem usar nada.
Um dia você acorda e não liga o celular, nem a televisão, nem o computador, nem mesmo a torradeira.
Um dia você acorda e diz não.
Um dia você acorda e se lembra quantos anos tem.
Um dia você acorda e percebe que seu cachorro não merece nada.
Um dia você acorda e quer apenas literatura.
Um dia você acorda e não quer correr, não quer cuidar do seu corpo, nem pentear os cabelos, nem fazer clareamento dental.
Um dia você acorda e não acha graça nenhuma da vida das celebridades.
Um dia você acorda e vê o quão ridículo é uma pessoa que rebola ser chamada de artista.
Um dia você acorda e se preocupa em saber o que é arte.
Um dia você acorda e que ler todos os livros que comprou. 
Um dia você acorda e enxerga as expressões absurdas que ouviu ao longo da vida: livro decorativo, cachorro acessório e por aí vai.
Um dia você acorda e entende que nobody gives a shit.
Um dia você acorda e percebe que precisa rezar de verdade, sair desse mundo programado por alguns segundos.
Um dia você acorda e anda de bicicleta, faz caminhada, toma café, escova os dentes, beija seus queridos, ama seus amados e não expõe nada disso.





Um dia você acorda.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Bom dia, boa tarde, boa noite.

Preso. Está impedido. Está impossibilitado. É constantemente enganado. É tratado como criança, como demente. É idiotizado. Acredita no fundinho de verdade, que não existe. Não existe fundinho, nem superfície. Sorria, você está sendo filmado, controlado e está adorando. Não se incomoda, não se perturba, não questiona. Você é perfeito. É o figurante necessário para que a dominação se instale. Você é um colaborador. Colabora. Mantém tudo como está. Não tem passado, pra não lembrar. Nem futuro, pra não imaginar. Você á aquilo que é. E vai sempre ser. Que sorte a sua. Você sou eu e ele. Você somos todos. 



Onde não existe pontuação.


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Já passou... Já passou...

Mortos numa boate, internados em estado grave, ataques ao transporte publico. Paradinha: famílias felizes, margarina, carro novo. Sequestro de uma criança autista, corrupção, impunidade, desvio de dinheiro. Paradinha: vida saudável, florestas, alegria. Falta de emprego, mais mortes, mais ataque. Calma, já passou. A seleção brasileira chegou à Inglaterra e a Beyonce vai sair em turnê. Ufa, que sorte. Quais eram as outras notícias?... A lembrança retomaria os sentimentos de dor e revolta. Pode ser que você volte a chorar. Pode ser que você saia de casa e cobre por respostas, por justiça. Pode ser que você não aguente a dor de perceber o quão distante se tornou das outras pessoas.
 
A ordem dos fatores altera o produto, você sabe que altera.
 
 
 
 

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Onde vivem os monstros.

Falo de um lugar estranho. Estranho e conhecido, de dentro e de fora. Com um pé na cova e o outro a quilometros dali. Falo de dentro do mundo, olhando de fora. Um fora tomado de dentro, que dialoga com o que faz parte e desconhece o que é completamente selvagem, não tocado. De um lugar que não conclui. Que se vê preso por usar argumentos de dentro para justificar estar fora. O sonho de estar fora é transformado em pesadelo pela probabilidade de nunca mais ser aceito dentro. A ameaça é terrorista. Afasta e prende, joga ioiô com a cabeça. A minha, a sua, a nossa. O desejo de cortar a corda fica suspenso, aqueles que rolaram para longe nunca mais foram vistos. E os que não são vistos não mais existem. Corta ou não corta?
 
 
 
 
 
Lugar de gente feliz.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

pequeno outro

Quando algo passa despercebido, nós culpamos a correria. Quando alguém passa despercebido, a vida perdeu pelo menos metade de seu valor. É difícil acreditar que o ser humano tenha chegado ao ponto de não se reconhecer no outro. Essa diferenciação falsa dos transeuntes, imersos na marcha fúnebre das escadas e elevadores, assusta os que estão sentados, comendo pipoca e assistindo ao filme horroroso sobre os homens que existiam sozinhos no mundo. O horror vai além. Sozinhos e desapercebidos, crentes na conexão. Com uma fé inabalável. A sinopse não poderia ser um texto mais nauseabundo: os verdadeiros fiéis radicais do potencial redentor da comunicação virtual finalmente alcançam a salvação. Estão nos braços de seu deus. Um deus que protege de danos físicos, afasta das dores do coração e os transforma nos sozinhos-contentes-abobados mais realizados do Universo. Finalmente podem gozar da comunicação sem limites! Estão livres dos toque, dos odores, dos sons e dos sabores que poderiam os atacar. Viva a distância segura. 





Let´s just show them how happy we are.